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Bullying com autistas: O que o aplicativo Mirimim tem a ensinar

8 minutos de leitura

Falar sobre inclusão é importante. Praticá-la, então, é essencial. Quando se trata de crianças autistas, os desafios vão muito além da comunicação ou do comportamento — eles envolvem também o modo como a sociedade acolhe (ou rejeita) essas crianças no ambiente escolar, nos parquinhos e na vida cotidiana. Por isso, hoje trazemos uma história inspiradora que une amor, tecnologia e ação concreta contra um problema sério: o bullying.

Aline Bernardi, que já  nos contou a história do filho Augusto, é uma voz engajada quando se fala em criar soluções reais para crianças autistas. Ao lado do marido, Diogo Ruiz, ela desenvolveu o aplicativo Mirimim, uma ferramenta lúdica e pedagógica pensada desde o início para ajudar crianças como seu filho a enfrentarem os desafios da socialização — inclusive o bullying.

Como Tudo Começou

A inspiração para o Mirimim nasceu, como tantas soluções verdadeiras, dentro de casa, da observação e da vivência de uma família que respira o autismo todos os dias. Segundo Aline:

“O Mirimim surgiu a partir de uma necessidade nossa, da família. A ideia de sempre buscar soluções e trazer novos estímulos para criança com autismo, no caso do meu filho, sempre foi algo presente no nosso dia a dia…”

Durante uma viagem, Augusto precisou aprender Espanhol. Para isso, a família usou o aplicativo Duolingo, que com sua abordagem gamificada facilitou a aprendizagem de uma nova língua. No entanto, mesmo dominando algumas palavras em Espanhol, Augusto ainda enfrentava obstáculos no momento mais difícil: a interação com outras crianças.

Foi nesse momento que surgiu o insight. Se um aplicativo pode ajudar a aprender uma língua, por que não poderia ajudar a aprender habilidades sociais?

“…mesmo sabendo a nova língua ele continuava esbarrando nas dificuldades de socialização que o transtorno do espectro autista traz. E aí, fazendo essa associação entre o que ele aprendeu jogando num aplicativo interativo e gamificado, a gente imaginou fazer algo muito semelhante para ensiná-lo as habilidades sociais…”

Assim, o Mirimim foi ganhando forma — primeiro com atividades simples, realizadas no computador de casa, e depois com a validação de profissionais de diversas áreas.

Fonte imagem: Arquivo pessoal – cedida por Aline

Da Experiência à Transformação

Uma das cenas que mais marcou a família Bernardi foi quando Augusto, após treinar com o Mirimim, conseguiu pedir um brinquedo emprestado de forma independente:

Ele um dia foi até o parquinho e pediu emprestado uma patinete de forma bem funcional e principalmente independente para uma criança e ela permitiu e ele conseguiu dar uma voltinha.

Essa vitória não veio por acaso. Antes, Augusto se aproximava sem compreender que precisava pedir ou esperar. Muitas vezes saia correndo em disparada atrás das crianças com o patinete, e isso, muitas vezes, acabava afastando delas Mas com o uso das atividades lúdicas e gamificadas do Mirimim, ele passou a reconhecer as normas sociais de forma prática e concreta.

O feedback das profissionais foi imediato e positivo. Psicólogas, terapeutas e fonoaudiólogas validaram a metodologia, o que impulsionou a família a tornar o projeto ainda mais robusto. Hoje, o Mirimim oferece mais de 500 atividades, baseadas em protocolos amplamente utilizados por clínicas e terapeutas em todo o Brasil.

O Bullying e a urgência da educação emocional

Foi a partir dessa experiência transformadora que os criadores do Mirimim perceberam a importância de ir além das habilidades sociais básicas. Aline explica:

Observamos que os índices de bullying atualmente são alarmantes e significativos, sendo ainda mais intensos para crianças com autismo. O Augusto, por exemplo, enfrentou esse problema, o que reforça a importância de agirmos no combate a essas agressões. Com esse propósito, lançamos a atividade Amizade Saudável”

Infelizmente, os números confirmam a realidade alarmante. De acordo com estudos recentes, 1 em cada 3 estudantes sofre bullying, mas dentro da comunidade autista, esse índice salta para impressionantes 77%.

Esse tipo de violência deixa marcas profundas, e muitas vezes, o que falta é exatamente o que o Mirimim busca oferecer: uma forma acessível de identificar, compreender e reagir ao bullying. Afinal, como Aline bem pontua:

“…principalmente para os neurodiversos é a dificuldade de entender as nuances sociais, como por exemplo, quando estou sendo manipulado? Quando estou sendo chantageado? Como essas situações que acontecem são identificadas pelos autistas de forma mais prática…”

Diante disso, a equipe do Mirimim, junto com especialistas e com o auxílio da inteligência artificial, desenvolveu uma nova atividade chamada “Amizade Saudável”. O objetivo principal é ensinar às crianças, desde cedo, a identificar relações saudáveis e abusivas, de forma visual e interativa.

A atividade oferece exemplos práticos para que a criança identifique quando está diante de alguém que promove relações positivas e favoráveis, além de ensinar a estabelecer limites e lidar com situações desfavoráveis de forma segura.

Fonte imagem: Arquivo pessoal – cedida por Aline

Prevenção e autonomia

A experiência de Augusto reforça a necessidade de autonomia emocional e social. Mesmo com o apoio e atenção da escola, ele precisou desenvolver a capacidade de perceber por si próprio o que é ou não aceitável:

“Mais importante do que estar rodeado de pessoas dando suporte a ele, ele também precisa ter a capacidade de saber como lidar com situações de bullying quando não estiver com pessoas que o protejam por perto.”

Isso também vale para quem pratica o bullying. O aplicativo não ensina apenas a quem sofre, mas também a quem, por falta de informação e empatia, pode estar repetindo comportamentos nocivos. O Mirimim ensina sobre relações saudáveis de ponta a ponta.

Nas atividades, a criança é apresentada a uma situação cotidiana com três possíveis respostas. Ao escolher a mais adequada, recebe um reforço positivo visual, com um Mirimim feliz. Se erra, o próprio personagem sinaliza a necessidade de repensar a ação.

Muito mais que um jogo

Aline é enfática ao lembrar:

“O Mirimim não é um jogo, ele tem um objetivo pedagógico e de desenvolvimento de habilidades… Mas é importante frisar que o aplicativo não substitui terapias, ele é um aliado das terapeutas e das famílias.”

O envolvimento dos responsáveis é essencial. Quando a criança se reconhece dentro das situações do aplicativo, ela se sente mais segura para compartilhar vivências da vida real. Com o acompanhamento de um adulto, esses momentos se tornam oportunidades preciosas de crescimento emocional.

Além disso, o Mirimim está em expansão. Mesmo tendo sido desenvolvido inicialmente com recursos limitados, a equipe agora busca investimentos e parcerias para evoluir ainda mais o projeto. Entre as melhorias previstas, está a personalização do percurso de cada criança por meio de inteligência artificial, tornando a experiência mais significativa e motivadora.

Uma ferramenta necessária para escolas e famílias

Desde o lançamento da atividade “Amizade Saudável”, no Dia do Amigo (20 de julho), o retorno tem sido altamente positivo. Professores têm procurado os criadores do Mirimim para implantar o aplicativo em suas escolas.

Isso não é surpresa. Afinal, a escola é um dos principais palcos da socialização — e, infelizmente, também do bullying. Ter uma ferramenta pedagógica como o Mirimim à disposição não só ajuda as crianças neurodivergentes, mas toda a comunidade escolar a evoluir em empatia, comunicação e respeito.

Combate ao bullying com autistas

Combater o bullying é uma missão que exige ação. Quando falamos de crianças autistas, esse combate precisa ser ainda mais cuidadoso, inteligente e estruturado. O Mirimim se apresenta como uma dessas respostas. Não substitui o olhar humano, mas amplia as possibilidades de diálogo, aprendizado e empoderamento.

Ao oferecer uma abordagem lúdica e respeitosa, o aplicativo se torna uma ponte entre o mundo interno da criança e os desafios da vida real. É sobre ensinar que brincar junto, pedir licença, colocar limites e reconhecer relações tóxicas também fazem parte do desenvolvimento.

Que o exemplo de Aline, Diogo e do pequeno Augusto inspire outras famílias, profissionais e educadores. Porque inclusão não se faz apenas com discursos — se faz, acima de tudo, com atitudes e ferramentas como o Mirimim.

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