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A jornada de Fernanda e Arthur: amor, inclusão e autismo

7 minutos de leitura

A história da Fernanda Quaresma de Vasconcelos e do proTEA Arthur é uma daquelas que tocam o coração e mostram o verdadeiro significado do amor incondicional, inclusão e autismo. Aos 42 anos, casada, mãe biológica de Maria Eduarda, de 24 anos, e de Arthur Felipe, de 10, Fernanda se define com orgulho como “mãe do coração” de Arthur. Trabalhando há quase dez anos como Propagandista Vendedora na Supera Farma, ela encontrou no amor e na dedicação a força para transformar a vida de um menino que o mundo, em algum momento, pareceu não querer acolher.

Um vínculo que começou antes do nascimento

A história entre Fernanda e Arthur começou antes mesmo de ele nascer. Ela conhecia a mãe biológica de Arthur e acompanhou de perto uma gravidez que, infelizmente, não foi desejada.

“Conheço Arthur desde o ventre da mãe dele, ela não queria a gravidez. Quando ela tinha 7 meses falou que estava grávida. Quando o bebê nasceu, o pai também não quis ficar com ele. Ninguém queria saber de Arthur…”

Desde o início, Fernanda sentia uma ligação inexplicável com o bebê. Ela acompanhava de perto a rotina dele e se tornava, aos poucos, seu porto seguro.

“Eu sempre dei o suporte para o Arthur e sempre participei da vida do Arthur. Eu sempre amei Arthur e via as coisas que faziam com ele e eu não podia fazer nada…

O único aconchego que ele tinha era comigo… para eu poder ver Arthur a mãe dele deixava ele na casa da minha mãe ou eu ia buscar Arthur. Toda vez que ele me via, desde pequenininho ele queria ficar comigo… ele me chamava de Babá… que era o nome de uma fada. Ele chorava muito quando me via. Eu tinha um amor pelo Arthur do mesmo jeito que eu tinha pela minha filha. Era um amor que às vezes eu não entendia.”

O tempo passou e, mesmo sem entender completamente aquele laço, Fernanda sabia que existia algo especial entre eles. Arthur demonstrava afeto, buscava a presença dela e, pouco a pouco, foi se tornando parte inseparável da família.

O reencontro e o diagnóstico de autismo

Arthur enfrentou uma infância difícil. Entre idas e vindas, Fernanda sofreu com a distância.

“Uma vez Arthur sumiu, por uns 6 meses. Eu sofria dia e noite procurando Arthur… foi a época que eu mais sofri na minha vida…”

Quando Arthur tinha 3 anos, finalmente foi morar com Fernanda. E foi nesse momento que ela começou a perceber sinais diferentes no comportamento do menino. Ele não falava, andava nas pontas dos pés e costumava se jogar no chão.

Fernanda já trabalhava com medicamentos e conhecia uma neurologista chamada Sara. Foi a partir desse contato que ela começou a estudar mais sobre o autismo e se reconhecer nas descrições que lia.

“Eu conhecia a neurologista Sara, eu trabalhava com Risperidona na época. Quando comecei a estudar sobre o produto, comecei a ver muitas coisas que lembravam características de Arthur, ele não conseguia falar…”

A médica confirmou o que Fernanda já intuía: Arthur estava dentro do espectro autista (TEA).

Assumindo o amor e a responsabilidade

O diagnóstico foi um divisor de águas. Quando todos se afastaram, Fernanda decidiu ficar.

“Quando ele teve o diagnóstico ninguém queria mais Arthur, foi aí que tomei a frente e assumi os cuidados de Arthur.”

A partir desse momento, ela mergulhou de cabeça em terapias, leituras e tudo o que pudesse ajudar o filho. Arthur iniciou o tratamento com medicação e passou a frequentar sessões de terapia comportamental e de fala.

“Quando a gente começa o tratamento, tudo se torna mais fácil. As informações estão aí para as pessoas irem em busca.”

Graças à dedicação de Fernanda, o menino evoluiu muito. Aos poucos, o medicamento foi reduzido, e hoje Arthur tem diagnóstico de autismo nível 1 de suporte.

Fonte: Arquivo Pessoal – cedida por Fernanda

Conquistas e avanços

A rotina de terapias trouxe resultados visíveis. Fernanda conta com orgulho as pequenas — e grandes — vitórias do filho.

“A escola que Arthur estuda é inclusiva à tarde, no período da manhã ela não é. Quando Arthur foi para a turma da tarde ele melhorou muito. Arthur aprendeu a cortar a carne, ele tinha muita dificuldade em fazer isso. A minha filha é enfermeira, ela ajuda muito no desenvolvimento do Arthur…”

Arthur também revelou talentos que surpreendem todos ao redor.

“Arthur tem o dom de pintar e desenhar, ele pinta e desenha muito bem. Ele gosta muito de ler e tudo dele é de bicho… ele gosta dos bichos mais diferentes. Maria Eduarda ajuda muito na questão de tela para Arthur, das amizades… Arthur só veio pra somar e deixar minha família mais feliz.”

Com o tempo, Fernanda viu o filho se tornar mais independente. Hoje, ele toma banho sozinho, se veste, nada e até ajuda nas tarefas de casa.

“Hoje Arthur é independente, ele toma banho sozinho, ele nada, ele pinta, troca de roupa sozinho… isso foi um processo de construção. Antes ele se jogava no chão e só eu conseguia tirar ele. Arthur mostra hoje para que veio…”

Uma lição de amor e superação

Fernanda diz que Arthur mudou completamente sua forma de ver o mundo.

“Eu me tornei uma pessoa melhor por causa de Arthur, ele ensina todos os dias pra gente, ele não me deixa ser infeliz. Ele me motiva. Todo dia agradeço pela vida de Arthur…”

Arthur foi alfabetizado há três anos, com muito esforço, disciplina e fé. E, segundo Fernanda, ele é uma criança carismática, inteligente e muito amorosa.

“O Arthur é um menino que não gosta de ver as pessoas tristes, ele é amoroso, generoso, ama abraçar. Ama pintar e desenhar, gosta de Pokémon… Ele é divertido, alegre, ele tem uma luz.”

Mesmo com energia de sobra, Arthur aprendeu a respeitar limites. Ele passou por um processo cuidadoso para dormir sem medicação e, hoje, tem um sono tranquilo. Além disso, começou a tomar um suplemento com alto teor de colina, que ajudou bastante na concentração.

Fonte: Arquivo Pessoal – cedida por Fernanda

Inclusão e empatia: o grande desafio

Apesar das conquistas, Fernanda reconhece que o maior obstáculo ainda é a inclusão.

“O maior desafio que encontrei com o autismo foi a inclusão. As escolas são obrigadas a aceitar, mas não são obrigadas a receber. Lutei muito sobre a escola, não é propagado que o autismo é um espectro. Não temos uma educação para as pessoas sobre o espectro autista, tem muito estigma. O problema é a falta de inclusão das pessoas.”

Com firmeza, ela defende que o autista pode — e deve — viver do seu jeito, desde que tenha apoio.

“O autista pode viver do jeito e da maneira que ele quiser, isso também cabe à família. Ele precisa de apoio, que a pessoa diga: ‘Venha’ e ele vá junto. A minha família abraçou Arthur e conseguimos juntos.”

Um amor que transforma

Ao final da conversa, Fernanda reflete sobre tudo o que viveu e aprendeu com o autismo.

“Arthur me ensinou muito o que é o amor, independente de sangue, o amor não é o DNA… Arthur sempre mostra o lado bom da coisa. É um amor com atenção, respeitoso, sincero, sem interesse. Crianças autistas querem atenção, afeto e amor. Eu sou uma pessoa melhor hoje, olho mais à minha volta, foi uma lição que aprendi com o autismo.”

A história de Fernanda e Arthur é um lembrete poderoso de que o amor é o maior agente de inclusão que existe. Com paciência, informação e empatia, ela construiu um lar onde o autismo é compreendido e celebrado — e onde cada conquista é motivo de alegria.

Para continuar lendo histórias inspiradoras de autistas da vida real, visite a nossa categoria de textos #proTEAgonistas e siga o Autismo em Dia nas redes sociais.

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