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Poda Neuronal e Autismo: O relato de uma mãe leoa

9 minutos de leitura

Nielly Sposito Mariano atua como Propagandista na Supera Farma há dois anos e meio. Ela vive em Cuiabá, é casada com Wesley e, acima de tudo, é mãe do pequeno Pedro, de 6 anos, uma criança que se encontra no espectro autista. Sua história, assim como a de muitas famílias, é marcada por um momento crucial no desenvolvimento de seu filho – o instante da poda neuronal, que serviu como o primeiro sinal de que a jornada deles seria trilhada por um caminho de amor, intervenção e muita resiliência.

Inicialmente, o desenvolvimento de Pedro seguia o que se considera um curso típico. Portanto, desde a gestação, tudo havia ocorrido de forma tranquila. Nos seus primeiros anos, ele começou a utilizar as primeiras palavras e andou normalmente, tudo conforme o esperado.

O marco da poda neuronal

O cenário mudou de repente. Nielly lembra-se exatamente do momento em que percebeu que algo estava diferente no desenvolvimento de Pedro, um evento que a pesquisa e a neurologia mais tarde associariam ao processo natural, mas por vezes acentuado, da poda neuronal.

Ela relata:

Quando Pedro tinha 1 ano e 7 meses existiu uma poda neuronal. As palavras que ele aprendeu, papai e mamãe, não evoluíram para outras palavras. Se limitou a duas palavrinhas. Vimos que ele não estava evoluindo, foi bem na época do Covid… ficamos preocupados se tinha a ver com a não socialização. Também começou a ter seletividade alimentar, coisas que ele gostava de comer, ele deixou de comer. Começamos a nos preocupar… a primeira questão era a fala. A socialização, por conta de ter nascido em 2019, achávamos que tinha relação com não relacionar-se com outras crianças. Diante disso procurei uma fonoaudióloga que começou a tratar sem nenhum tipo de diagnóstico, para estimular a fala. Essa fono, após 2 meses, nos orientou a procurar uma neurologista para fazer uma avaliação mais aprofundada. Fomos então em busca de procurar uma profissional que nos encaminhou para uma psicóloga.

A poda neuronal, em termos simplificados, é um processo cerebral no qual as conexões sinápticas que não são utilizadas ou que são menos eficientes são eliminadas, permitindo que as conexões mais fortes e importantes se desenvolvam ainda mais. Porém, em contextos de neurodiversidade, como o autismo, esse processo pode, em alguns casos, ocorrer de forma atípica, afetando áreas cruciais como a linguagem, como se viu claramente no caso de Pedro.

Fonte: Arquivo pessoal – cedido por Nielly

Intervenção precoce: A resposta à preocupação

Imediatamente, após a orientação da fonoaudióloga, Nielly e Wesley se mobilizaram em busca de respostas. A profissional indicada avaliou Pedro em dez sessões, elaborou um relatório detalhado de tudo que observou, e só então a neurologista pôde fechar o diagnóstico.

Nielly confessa que, enquanto esperavam, a angústia era grande:

Quando a fono nos orientou a procurar avaliação, a gente começou a pesquisar, a ver as coisas na internet, a gente via o que ocorria dentro de casa, com as pesquisas na internet, aí a gente não queria acreditar… mas com 2 anos e 2 meses ele recebeu o diagnóstico. Não tivemos um diagnóstico tardio, porque intervimos o quanto antes.

Essa intervenção precoce foi um diferencial. Com o laudo de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em mãos, apesar da fragilidade inicial e do desconhecimento sobre o universo do autismo, o casal seguiu em frente, focado em oferecer o melhor suporte para Pedro. Eles se consideram pais práticos, e portanto, não houve o momento comum de negação; a prioridade era a ação.

Lidando com os primeiros desafios e a culpa

Nielly também compartilhou momentos de reflexão sobre atitudes passadas que, na verdade, eram manifestações do autismo de Pedro.

Algumas atitudes que ele tinha que a gente achava que era birra era o barulho do shopping. A gente se culpou muito por não ter a habilidade para lidar em algumas situações… foram poucas, mas marcaram muito.

Ainda assim, montaram uma grade intensa de terapias. Como resultado dessa dedicação, Pedro começou a apresentar muitos sinais de avanço.

Altos e Baixos: A seletividade alimentar e a rigidez

Embora os avanços fossem notáveis, a jornada de Pedro é marcada por momentos de evolução seguidos por retrações, o que é comum no TEA. Em primeiro lugar, um dos maiores desafios, e um ponto de frustração para Nielly, é a seletividade alimentar.

Tentei colocar ele no máximo de coisas possíveis, eu achava que ia melhorar, e evoluir. Aí tivemos o retrocesso da evolução. O Pedro tem muito momentos de evoluir muito e depois acontece uma retração. Quando começou as terapias, ele teve uma alteração grande na alimentação, de 3 para 4 anos… ele adorava abacate, o café da manhã dele era ovo cozido com abacate. Adorava arroz e feijão, adorava sopa. Do dia pra noite ele não queria mais comer. Já tivemos muitos altos e baixos na parte da seletividade alimentar.

Nielly, que ama cozinhar para todos, enfrenta o paradoxo de não conseguir cozinhar para o próprio filho. Atualmente, a alimentação de Pedro se resume, basicamente, a batata frita, um tipo específico de linguiça, leite com mucilon na mamadeira e um pirulito.

Para combater esse quadro, a terapia com nutricionista entrou em cena. Nielly explica os progressos, ainda que lentos:

Atualmente faz terapia com nutricionista. Passamos por altos e baixos… quando era menor ele comia carne, tiveram períodos da seletividade alimentar que ele gostava de carne. Ficou meses comendo somente picanha, mas logo deixou de comer. Teve um período que quis experimentar macarrão instantâneo, comeu por duas semanas, mas não comeu mais. A terapia vai ajudando a ofertar. Hoje ele pelo menos olha, cheira, passa a língua. Antes ele nem olhava. A terapia alimentar trabalha com a aproximação e o último estágio é comer.

TEA nível 2 e TDAH: O equilíbrio da rotina de terapias

Pedro foi diagnosticado com autismo nível 2 de suporte. Por conseguinte, a intensidade das terapias foi alta no início, abrangendo psicologia ABA (5x/semana), fonoaudiologia (5x/semana), Terapia Ocupacional (3x/semana), psicopedagoga (2x/semana) e motricidade. Ele até fez musicoterapia por um período.

Contudo, para equilibrar essa carga com o início da vida escolar, as terapias foram gradualmente reduzidas. Hoje em dia, a rotina inclui: psicologia ABA (3x/semana), fonoaudiologia (3x/semana) e nutricionista (1x/semana), além da motricidade aquática (1x/semana).

Porém, junto ao TEA, veio o diagnóstico de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), o que implicou o início da medicação.

Pedro é verbal, mas possui atraso na fala e utiliza bastante ecolalia. Curiosamente, ele adora falar inglês, que aprendeu assistindo a vídeos, e mistura os dois idiomas. Neste momento, ele está fazendo um tratamento específico chamado SENA, focado na dificuldade de processamento da fala.

Fonte: Arquivo pessoal – cedido por Nielly

Transformação pessoal e o símbolo da Leoa

A jornada com Pedro transformou a vida de Nielly e Wesley em todos os sentidos. Ela quis eternizar essa transformação de forma simbólica, então fez sua primeira tatuagem há dois meses:

Há dois meses fiz minha primeira tatuagem, sou outra pessoa depois do Pedro, o TEA transformou toda nossa vida, eu quis externar isso… essa tatuagem é uma Leoa, que é como eu me vejo lutando por ele e meu filhote marcado com um símbolo do autismo, que é o quebra cabeça.

Infelizmente, nem tudo são flores. Nielly relata que um dos maiores desafios é o preconceito. A frase que mais ouve é: “nossa ele nem parece autista”. Apesar de as pessoas acharem que isso é um elogio, ela frisa que não ajuda.

Nielly vive uma dupla jornada, visto que precisa conciliar o trabalho com a intensa rotina de terapias. Felizmente, ela conta com o suporte de uma babá e de uma empresa que facilita o desenvolvimento de Pedro.

O Mundo de Pedro: carinho, hot wheels e Super Mario

Apesar dos desafios, Pedro é um menino tranquilo, carinhoso e que dificilmente se incomoda com barulhos. Seu nervosismo aparece apenas quando a rigidez se manifesta, ou seja, quando ele deseja muito alguma coisa, o que é trabalhado em terapia.

Ele adora videogames, joga Roblox e é um grande fã do Super Mario, colecionando roupas e mochilas do personagem. Além disso, Pedro tem uma paixão por Hot Wheels; é obrigatório passar na seção e trazer um carro novo para casa.

Fonte: Arquivo pessoal – cedido por Nielly

A lição final: Empatia

Para concluir, a principal lição que Nielly aprendeu nessa jornada foi a empatia.

Me preocupo muito mais com os sentimentos das pessoas, cuidado com a fala. Me preocupo muito com o próximo. Antes eu vivia a minha vida, muito no meu mundo. Hoje penso muito na empatia.

Por fim, a mensagem de Nielly para outros pais e cuidadores é um lembrete poderoso de perseverança:

Desafios existem, mas não percamos a esperança. Não estamos sozinhos, com força se vencem os obstáculos.

Para continuar lendo histórias inspiradoras de autistas da vida real, visite a nossa categoria de textos #proTEAgonistas e siga o Autismo em Dia nas redes sociais.

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